quarta-feira, 24 de julho de 2013

Morre cantor e compositor pernambucano Dominguinhos


Cantor e compositor estava internado desde dezembro de 2012. Crédito: Ricardo Fernandes/DP
Cantor e compositor estava internado desde dezembro de 2012.

Depois de mais de sete meses internado, sete anos de quimioterapia na luta contra um câncer de pulmão e sete paradas cardíacas, a sanfona de Dominguinhos silenciou na noite de ontem.

José Domingos de Moraes estava internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, desde o dia 13 de janeiro deste ano, para onde foi transferido do hospital Santa Joana, no Recife. Na segunda-feira passada ele foi mais uma vez para a Unidade de Tratamento Intensivo  (UTI) do hospital, de onde havia saído apenas dois dias antes. A volta era por conta de uma infecção sanguínea e arritmia cardíaca. Dominguinhos faleceu às 18h da noite de ontem.

O velório acontece até às 16h desta quarta-feira na Assembleia Legislativa de São Paulo. O sepultamento será no Recife. Horário e local ainda não foram divulgados. "Meu pai dizia que queria ser enterrado na terra dele, em Garanhuns", disse ao Diario o primogêntio, Mauro Moraes. A ex-esposa  Guadalupe Mendonça, porém, confirmou o sepultamento no Recife.

A doença que debilitou o sanfoneiro, o câncer de pulmão, era, para ele, inexplicável. "Não sei como fui ter isso. Nunca fumei. Mas são coisas que acontecem e a gente não explica", disse em entrevista ao Diario. A saúde debilitada nunca o impediu de viajar pelo Brasil para shows. Para o exterior não ia mais: tinha pavor de avião. Nas capitais em que tocava, viajando sempre de carro, em longas jornadas, aproveitava para fazer o tratamento contra o câncer.

A saúde de Dominguinhos começou a piorar no município de Exu, onde esteve para comemorar o centenário de Luiz Gonzaga. Ele chegou na cidade no dia 12 de dezembro do ano passado, tocou um dia depois e seguiu para o Recife no dia 16. "Ele nunca foi de reclamar de dor, mas nessa viagem ele estava preocupado, disse que estava com uma tosse estranha", lembrou o pesquisador e amigo Paulo Vanderley.

Na viagem de carro de volta ao Recife, Dominguinhos passou mal. Familiares e amigos tentaram levá-lo para o hospital, mas ele preferiu ir para casa. No dia 17 foi para o Hospital Santa Joana. Exames detectaram uma infecção pulmonar e ele já foi internado. "Liguei para resolver um problema e disse que falaria com ele em um almoço, quando ele saísse do hospital. Ele me disse então que achava que iria demorar por lá", lembra Vanderley.

Um dia após a internação no hospital Santa Joana, Dominguinhos sofreu a primeira parada cardíaca. Foi para a UTI, onde foi entubado. Neurologicamente ainda estava bem. Ao longo da internação, sofreu mais seis paradas cardíacas. Uma delas chegou a durar quase cinco minutos e deixou profundas sequelas neurológicas. Em março, o Diario publicou com exclusividade que o coma de Dominguinhos era considerado irreversível.

Nas últimas semanas, o sanfoneiro lutava com constantes infecções e a dificuldade dos médicos em normalizar as batidas cardíacas. O boletim médico oficial afirma que o músico faleu em "decorrência de complicações infecciosas e cardíacas". O mundo perdeu um dos maiores sanfoneiros da história. O Nordeste, um genuíno representante.

Sanfona
 
Foi um amor do início ao fim da vida. A sanfona e  Dominguinhos estiveram juntos da época em que ainda desconhecia Luiz Gonzaga, quando se apresentou aos oito anos para ele, até as sucessivas sessões de quimioterapia, decorrentes do tratamento contra o câncer no pulmão. Em 2007, o artista, inicialmente conhecido como Nenê, deparou-se com o diagnóstico da doença.

Não parou de fazer shows, nem de gravar discos. Dominguinhos se recusava a parar. “Desde que eu comecei que é assim. Parar de fazer isso... não vai ter mais o que fazer”, declarou, eme entrevista ao Diario no ano passado.

Ao longo dos 72 anos de vida, o artista, filho de pais alagoanos, nascido em Garanhuns, trilhou uma estrada marcada por mais de 50 discos. A rica trajetória do sanfoneiro ganhou respaldo em homenagens, prêmios, tributos e uma legião de discípulos e fãs. Afinal, Dominguinhos é  principal herdeiro artístico de Luiz Gonzaga, alcunha dada pelo próprio Rei do Baião no momento em que lançou o conterrâneo, após presenteá-lo com sua primeira sanfona de 120 baixos e conselhos precisos.

A amizade dos dois é uma das mais importantes para a música brasileira. Em especial, foi responsável por ultrapassar as fronteiras do Nordeste. No ponto de vista de Gonzaga, a relevância de Dominguinhos para a cultura é mostrada na música Quando chegar o verão. Gonzaga diz a Dominguinhos: “Você abra o olho que seu compromisso com o Nordeste é muito sério. Você urbanizou o forró. Daqui pra frente, tem que ser tudo mais ‘mió’”. E assim, foi.

REI DO BAIÃO

Dominguinhos sempre fez questão de se mostrar grato ao Rei do Baião. “Fui muito ajudado... Sabe uma coisa em que hoje em dia eu penso? O que deu certo na minha vida foi que nem Gonzaguinha tinha ciúme, nem Joquinha, nem Rosinha... a família do Gonzaga toda se tornou amiga”, contou Dominguinhos em entrevista ao Diario no dia 13 de dezembro de 2011.

Entre os conselhos do rei do Baião, o que provavelmente mudou a rota da carreira artística de Dominguinhos foi o de cantar. “Ele foi um dos maiores sanfoneiros do mundo. Mas ele disse que só venceu quando cantou.

Enquanto ele foi um grande solista de valsa, choro, tango, não conseguiu muita coisa. Mas quando começou a cantar e gravar, tudo mudou. E esse conselho ele me dava também. Por conta desses conselhos, comecei a cantar”, disse.

FAMÍLIA
 
Dominguinhos se casou por duas vezes e teve três filhos. Madalena e Mauro, do primeiro casamento, e Liv Moraes, da união com a cantora Guadalupe Mendonça, que foi a única que seguiu os passos do pai. A filha mais velha morreu aos 49 anos, deixando dois filhos. Mauro, técnico de som, deu a Dominguinhos quatro netos e Liv Moraes, um.

Há mais de 30 anos o sanfoneiro fazia suas turnês viajando de carro. Tinha medo de avião. “Já tomei remédio, mas não adiantou. Fui até no médico, mas essa coisa de mexer com a cabeça é muito complicada”, contou o músico, que também tinha medo do mar e de florestas. “É um medo que se confunde com respeito”, ponderou. 
 
Resumo Geral
Fonte: Diário de Pernambuco

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